sexta-feira, agosto 25, 2006

A persistência da gaivota


Regresso à praia.
Gosto do ritmo constante do mar...
Da sua ondulação.. das marés.
Sento-me num banco de areia... desenho um círculo à minha volta...
E as palavras nascem-me da água..

Vejo chegar a gaivota.
Rodopia em torno da solitária...
Pousando as suas patas no círculo.
O bico prende-se nas ondas que beija o areal...
Ávida pelos destroços.
Os olhos abertos... acesos... prontos a queimar...
Fitam-me.

Dentro do círculo, crio um abrigo para me proteger do sol..
Mas a gaivota busca a solitária, tentando furar o abrigo.
Debica..as palhas da entrada... os fios...as coisas soltas...
Anseia por mais despojos..

Sinto o brilho do sol...
Há brilhos que podem durar mais que a própria luz.
Brilhos que nos libertam para atingir o mais fundo sentido da verdade.
Pois só libertando a verdade se desvela..
Brilhos que afastam a obscuridade..

A gaivota esvoaça…
Abre as suas asas para cobrir a intensidade do sol..
E em voo picado...
Rasa o mar.

No meio do círculo, abro as persianas da memória...
Ecoam em mim outros voos da mesma gaivota...persistente.
Porque insiste em penetrar no abrigo, atirando a sua sombra para o círculo?


Tudo vem dar à praia..
Até as penas das gaivotas mortas.

9 Comments:

Blogger Alberto Oliveira said...

"... e as palavras nascem-me da água... "

Uma imagem muito bela no interior de um poema de cores naturalista.

É a catedral de Milão, sim. E logo a seguir as galerias Vitor Emmanuel.

beijos e um óptimo fim-de-semana!

8:13 a.m.  
Blogger Bel said...

Tudo vai dar a praia porque só o mar tem o poder de nos purificar a mente. Bom fim de semana-

1:13 p.m.  
Blogger Manuel Veiga said...

o "eterno retorno" da memória. regressamos sempre mesma praia. como gaivotas solitárias...

gostei mto.

8:06 p.m.  
Blogger vida de vidro said...

Gostei de ler estas tuas palavras nascidas da água. Mesmo dentro do círculo em que nos refugiamos vemos os destroços que vêm dar à praia. **

10:43 p.m.  
Blogger as velas ardem ate ao fim said...

Tudo vem dar à praia..
Até as penas das gaivotas mortas...
Tao bonito que doi a alma...
Lembra te que não estas sozinha eu estou contigo.

abraço apertadinho

10:52 p.m.  
Blogger JL said...

Bonito. Gostei. E a frase final é forte: tudo vem dar à praia!
Boa semana

11:37 p.m.  
Blogger Alphynet said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

9:37 a.m.  
Blogger Alphynet said...

Acordes perdidos na memória regressaram enquanto te lia...

Larguei as letras e deixei-me vaguear na voz de Neil Diamond...

Lonely lookin sky
lonely sky, lonely looking sky
and bein' lonely
makes you wonder why
makes you wonder why
lonely looking sky
lonely looking sky
lonely looking sky

(...)

«Tudo vem dar à praia...»

Abraço de intensa amizade.

10:09 a.m.  
Blogger JPD said...

O Augusto Abelaira escreveu longos anos no Jornal uma crónica semanal com o t´+itulo «Escrever Na Água».
O apelo do mar é irresistível.
A necessidade de evasão é imensamenete satisfeita sendo perspectivada de um ponto e contexto como aquele que apontas.
As gaivotas fotram muito valorizadas desde a criação do João Capelo Gaivota...Lembras-te?
Bjs

10:24 p.m.  

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