sábado, setembro 16, 2006

O sonho comanda a vida

[ Patio das Cantinas. Univ. Coimbra. ] Estou no bar da «minha» Faculdade. Perscruto a «alma» académica desta geração de estudantes. Tento perceber a razão que está subjacente às suas lutas estudantis, mas em vão. Recordo as lutas em que estive envolvida e a comparação é inevitável. Bem sei que a minha geração foi muito influenciada pela Revolução de Abril que tinha ocorrido 12/14 anos antes. Lutávamos contra ou por amor a uma ideologia. Esta geração (perdoem-me) sinto-a vazia das mesmas. Não as questionam, nem as defendem. Simplesmente desconhecem-nas. Vejo-os sem sonhos colectivos. Primam pelo individualismo. Liberdade, Igualdade, Fraternidade ... (valores introduzidos pela Rev. Francesa e motor de tantas lutas sociais ), são conceitos cujo conteúdo não lhes é perceptível. Retrocedo no tempo. Sorrio ao recordar a fogosidade com que discursávamos ao defender a nossa « dama »; As noites que passei a discutir « O Capital » do Marx.. A ler as obras de Lenine.. O « Mein Kampf » do Hitler.. Os Estatutos do PSD ou o Manifesto do Partido Comunista. Era necessário conhecer para poder repudiar ou defender. Naquela altura, para além da Universidade, o centro nevrálgico da vida estudantil era a Praça da República. Toda a gente se encontrava sem ser necessária uma combinação prévia. Telemóvel era coisa de« George Lucas ou de Spilberg.» Nessa Praça existiam 4 cafés: O « Académico » frequentado pelos estudantes da JSD; O « Mandarim » pelos estudantes do CDS; O « Pigalle » pelos da J. Socialista E o « Tropical » ( pomposamente apelidado de Kremlin ) pelos da U.E.C./J.C.P. Ninguém se misturava. Cada macaco no seu galho. Eu era uma jovem « passionária » apaixonada pelo Che Guevara ( ainda hoje é uma figura que me deslumbra ). Tinha um longo cabelo aloirado, repartido por duas tranças e uma franja a cobrir-me a testa. Andava sempre com uma boina basca onde, à frente, colocava um emblema em forma de estrela. Tantos sonhos ideológicos povoavam a minha mente. Tanta utopia. Sorrio com nostalgia. Esta geração de estudantes não luta. Sinto-os acomodados. Confrange-me a sua passividade. Estão numa idade em que deviam ser contestatários, interventivos e rebeldes em relação ao poder instalado. Se agora, com 20 anos, não reivindicam, como será quando tiverem 40...?! Seguramente serão uns autómatos, uns « yes, man ». Divago. Ainda acredito que, se os Homens quisessem, era possível construir uma sociedade melhor. Continuo a mesma sonhadora. Como diz Gedeão na sua Pedra Filosofal: « ... o sonho comanda a vida e sempre que o Homem sonha, o Mundo pula e avança ... »

7 Comments:

Blogger JPD said...

Não há qualquer recriminação relativamente ao sonho.
A questão está na distância que vai do Che ap IPod.
E não haverá muita a fazer.
Os jovens já ne querem saber e/ou muito dificilmente percebem esses nossos herois.
Bjs

10:22 p.m.  
Blogger nmc said...

"Era necessário conhecer para poder repudiar ou defender."

Ainda hoje uma grande verdade a que muitos, infelizmente, renunciam... é mais fácil ler as capas do Correio da Manhã e engolir.

"Ainda acredito que, se os Homens quisessem, era possível construir uma sociedade melhor."

Esta será verdade sempre... enquanto existirmos, sonharemos...

:)

7:16 p.m.  
Blogger nmc said...

Outra coisa...

O mundo entretanto mudou, já não é o que era... como é natural e saudável.
Os estudantes continuam a lutar, pelo menos alguns. As razões da luta é que mudaram, apesar de ainda existir muita gente que gosta de continuar a lutar contra fantasmas.

7:20 p.m.  
Blogger Manuel Veiga said...

um beijo, um beijo! como eu te compreendo na tuas "amarguras"...

7:52 p.m.  
Blogger greentea said...

nao estudei em coimbra mas aqui em Lisboa e de facto os tempos sao outros

lembro a pide e a policia de choque a entrarem faculdade adentro, lembro o rasto dos q foram presos, sapatos espalhados pelo anfiteatro e corredores, as sebentas a voarem pelos jardins ...depois carrinhas de choque A porta e a escola fechada
e um 1º de maio que nunca se fazia e os espectaculos onde se ia a medo para ouvir Jose Afonso ou Cilia ou outros

Lembras bem...

1:05 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Também estive nos mesmos lugares, 8 anos antes de ti. Os meus lugares de amor.Também os vivi como tu. Não é impunemente que se é jovem e se vive em Coimbra. Beijos.

11:08 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Passei por cá enquanto navegava e não pude deixar de deixar um comentário.

Estudo em Coimbra e sou trabalhador-estudante. Pago propinas. Quem me dera não ter de as pagar. Detesto a JCP e os seus pseudo-fazedores de revoluções que (tal como no teu tempo) ainda passam umas boas horas a esfumaçar e a barafustar no Tropical a dizer mal do sistema.

Cruzei-me com eles (e por pouco não me filiava!) porque me pareceram essoas activas e dispostas a ajudar quem mais precisa, mas enganei-me depressa quando percebi que preferem passar o tempo a sonhar com o dia em que a estrutura da sociedade de facto mudar como pretendem do que realizar algo que não seja mediatico. Sou daquelas pessoas que realiza depois de sonhar com os pés bem assentes na terra. Além disso acredito na capacidade de realização do ser humano "per si". Já ouviste falar do prémio nobel deste ano? Não? Então procura.

Como diz um provérbio escocês: "há aqueles que vêm acontecer, há aqueles que fazem acontecer e há aqueles que perguntam o que aconteceu". E tu, pertences a que grupo?

De qualquer forma, gostei muito do teu post.

Sinceros cumprimentos.

12:01 a.m.  

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