Um café matinal

Voltei a chegar primeiro.
Não ao nosso Café matinal, mas sim para um... café matinal.
Lugar estranho, impessoal.
Lugar sem memórias.. sem recordações.
Muito cordatos, desempenhamos as personagens que a nós próprios atribuímos.
Representamo-nos.
Fomos actores dum «argumento» por nós consentido e desejado.
Mas fomos maus actores.
Os meus olhos tristes... resvalavam dos teus olhos baços...
Não nos era tolerado fixarmo-nos.
Intuímo-lo.
Sabíamos que se o fizéssemos... perdermo-nos-iamos nas suas profundezas.
Tagarelamos sobre coisas sem sentido... para assim o tempo se escapar e não falarmos sobre a essência...
No desempenho deste nosso «argumento»...
Fomos maus actores.
Inconscientemente, as mãos buscavam-se...
Mas as personagens não consentiam que se tocassem.
Não estava no guião.
Assim como os lábios...
Sentimos o quanto se queriam unir.
Primeiro suavemente...
Depois... num fogo ardente que nos voltaria a queimar...
O guião não nos autorizava tais intimidades.
Desejadas...
Ansiadas...
Controladas...
Despedimo-nos seguindo o guião:
Dum modo civilizado, cordato e ameno.
Cada um transportando dentro de si o fogo que se quer extinto, mas que ainda arde.
Senti-o.
Sentiste-o.
Levamo-lo, em sentidos inversos, como companheiro das nossas solitudes.
Uma certeza nos acompanhou:
Fomos maus actores no guião por nós elaborado.
Mas desempenhamos o papel até ao fim da peça!

1 Comments:
... o teatro da vida não é nada fácil de representar; diz quem é actor. Quem sabe se por isso, a minha atrapalhação quando ocasionalmente me chamam a um palco...
beijo.
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