Sagrado Improfano
Nada havia de profano no seu sorriso.
Era o espelho do sentir e do amor à vida.
Nem no meu.
Eram como cânticos que sabíamos entoar e se soltavam da garganta como se quisessem sair do deserto onde estavam cativos.
Cânticos sorridentes, sem música audível, como notas que se anunciam apenas na sensibilidade dos compositores.
Tínhamos a profunda convicção de que o que é vivido plenamente nos humaniza e enriquece.
Por isso, com o sol a brilhar-nos nos olhos, fomos livres e autênticos.
Irmanados pelo impulso que nos unia e engravidava, contemplávamo-nos.
Os meus olhos, cativos nos seus, bebia-os.
Assolava-me uma dupla sede.
Sede que se perpetua no presente como se o ontem fosse o amanhã.


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