quinta-feira, junho 22, 2006

«Lágrimas Negras»


Fui a primeira vez a Cuba em 1994.
Foi uma viagem muito curiosa e interessante.

Nesse ano (94) li no “Expresso” uma reportagem sobre um Festival onde os Trovante tinham marcado presença. Esse Festival tinha decorrido em Havana.
A ilustrar essa reportagem estava uma fotografia do «Malecón» (marginal da cidade de Havana com 7 km ).
Fiquei fascinada, com vontade de me evadir naquele local, de passear por lá.
De conhecer a Ilha dos “barbudos” da Sierra Maestra.

Como não havia nas Agências de Turismo “pacotes” de férias para Cuba, resolvi procurar antigos contactos do meu tempo de universitária rebelde. (sorrio)
Deparou-se-me a seguinte hipótese:
25 dias, hotéis de 4/5 estrelas, pensão completa, percurso de autocarro por toda a Ilha (Cuba é maior que Portugal)e, quando chegasse a Santiago, retornaria a Havana por avião.

Nem hesitei.
“Embarquei” nessa aventura.

Uma das muitas coisas que me chamou a atenção, foi a alegria do povo apesar das adversidades da vida.
A sua música. Os seus ritmos.
Na altura pouco se falava da música cubana.
Esta “nasceu para o mundo” depois do trabalho do Nick Gold e do Ry Cooder, «BuenaVista Social Club», em 1997.

Tomei contacto com o «Lágrimas Negras», pela 1ª vez, em Santiago (1994).

Era sábado. Recordo-me bem.

Íamos numa das ruas da cidade e começamos a ouvir música, ao fundo, e a ver um grande amontoado de pessoas.
Aproximamo-nos.
A música vinha do interior de uma «casa» e era tocada por um grupo de músicos idosos.
Na rua ( e lá dentro ) as pessoas dançavam.
Todos cubanos.
Essa «casa» donde saía a música era, nem mais nem menos, a «Casa de la Trova», fundada pelos Irmãos Matamoros.
(ícones da música cubana dos anos 40. Foi o Miguel Matamoros quem escreveu o Lágrimas Negras )

Vim a saber que era comum, aos fins-de-semana, os «santiageros» se juntarem na Casa de la Trova para conviverem.

Perante esta «maravilha» que me tinha caído aos pés, não pensei duas vezes:
Furei aquele aglomerado de gente e entrei na «Casa».
Encontrei um espacito e lá fiquei, quietinha, a escutá-los. Sozinha.
Olvidei completamente o grupo que me acompanhava.
Ali estive cerca de duas horas. Deliciada com a minha «sobremesa».

Foi nesse dia que escutei o Lágrimas Negras pela 1ª vez. Ao vivo. Tocado por «santiageros» populares.

Há cerca de três anos, na Fnac, estava na secção dos cd´s, e comecei a ouvir um «som» que mexeu comigo.
Com a curiosidade musical que me caracteriza, dirigi-me ao funcionário e indaguei.
Era «um» «Bebo e Cigala». O cd chamava-se: «Blanco Y Negro».
Comprei-o sem o escutar na totalidade (faço isso muita vez).
O pouco que tinha ouvido satisfazia-me.E continha o Lágrimas Negras.

Que trabalho maravilhoso.
Uma pérola.

O Bebo (Valdês) é um lendário pianista cubano, de jazz, com cerca de oitenta anos.
O Cigala ( Diego el Cigala) é um cantor espanhol, de flamenco, com cerca de 38 anos.

Onde está o encanto?
Na selecção musical, nas interpretações majestosas, no timbre da voz do Cigala. Na mistura dos ritmos cubanos e latinos com a voz rouca e rasgada dum cantor de flamenco.

É um trabalho sublime, de um intimismo marcante.
É uma verdadeira catarse de emoções.

3 Comments:

Blogger greentea said...

fiquei a ouvir a música ...
gosto imenso destes géneros

nunca fui a Cuba. Tive uma amiga que trabalhou lá durante alguns anos , numa embaixada
daí guardo memórias, sons, imagens, poetas e pintores

um abraço

3:48 p.m.  
Blogger JPD said...

Belo texto.
Nunca fui a Cuba.
Tenho viajado imenso pela Europa. Ao Caribe, népias!
Diz-se que os charutos cubanos são os melhores doi mundo por serem enrolados nas coxas das negras.
Eu acredito.
Não pelos charutos, não pelas coxas das negras, mas porque há uma imaginação inesgotável numa ideia de difusão de uma certa cultura, através desta expressão...
(Anexei-te aos meus favoritos e espero ver retribuidas as visitas que farei assiduamente a este teu blog.)
Bjs

11:45 p.m.  
Blogger Manuel Veiga said...

estive em Cuba no ano de 1994. e fiquei a admirar aquele Povo e a odiar ainda mais o bloqueio ilegítimo a que há tantos anos está sujeito...

talvez um dia escreva sobre essa essa experiência inesquecível...

12:40 p.m.  

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